1,563 Sonhos

por Patricia Lobaccaro

BrazilFoundation recebeu esse ano 1,563 propostas por meio de sua chamada pública de seleção, um número jamais visto em nossos 15 anos de atuação, um aumento de 97% na demanda por financiamento.

Esses números representam duas coisas: a primeira ligada escassez de recursos disponíveis para o setor social, uma vez em que tanto empresas quanto o governo estão reduzindo apoios, mas a outra, muito mais interessante, é que a sociedade civil no Brasil nunca esteve tão ativa, tão alerta e tão engajada. A qualidade das propostas recebidas surpreende e posso dizer que nunca vimos um nível de inovação e transformação tão grande no setor.

Passei o final de ano reclusa, lendo essas propostas, ouvindo as demandas e conhecendo esses 1,563 sonhos que vieram de 529 municípios de todos os estados do Brasil. Sonhos de brasileiros e brasileiras que lutam pela melhoria da qualidade de vida, por justiça, por igualdade e por maiores oportunidades nas comunidades aonde moram – e que precisam e merecem apoio.

A maior demanda – 760 propostas – vem da área de Educação e Cultura. Metade são pedidos de apoio para de coisas muito básicas, como reparos simples  na estrutura física de uma creche para que esta possa voltar a ter convênio com a prefeitura e atender as crianças da região, compra de material escolar, ou manutenção mínima de atividades. A outra parte revela uma tendência de transformação e quebra de paradigmas. Dá pra notar um grande crescimento em áreas como educação para empreendedorismo, tecnologia e programação, propostas embasadas em metodologias de resolução de conflitos, design thinking, cooperação, salas de aula alternativas, consciência ambiental e educação para a cidadania, incluindo formação política para jovens e advocacy. Nosso país poderia ser a Pátria Educadora, se quisesse, mas infelizmente ainda estamos muito longe de ser. 

A área programática que mais cresceu foi a de Negócios Sociais – recebemos 117 propostas de financiamento, um aumento de 3 vezes na demanda. Isso aponta que o setor está buscando alternativas de mercado que possam trazer sustentabilidade para a atuação das organizações, com muitas delas abrindo braços de negócios para financiar suas missões, e outras iniciativas já construídas enquanto negócios com alto potencial de transformação social e ambiental. Um exemplo é um negócio de compostagem que sonha em fazer com que a sociedade enxergue o lixo como ativo e não como problema, aproveitando a riqueza da matéria orgânica que compõe 60% do lixo; outro é uma fábrica de farinha de camarão que aproveita as cascas que são descartadas, resolvendo um problema ambiental e gerando renda; outras incluem públicos marginalizados na cadeia de valor, como uma marmitaria orgânica com gestão participativa empregando pessoas com transtorno mental.

Também cresceu muito a área de participação cidadã. O Brasil vive um momento em que seus cidadãos não se sentem representados pelo governo, pelas instituições e pela mídia tradicional. Recebemos 95 propostas de advocacy, quase 100 propostas de comunicação comunitária, cerca de 30 projetos de controle social. É uma parte da sociedade civil que está em ebulição e que aponta para uma renovação na forma de se fazer políticas no Brasil, com mais ética, mais transparência e mais participação da sociedade em geral. 

Identificar tantas propostas dignas de apoio e ao mesmo tempo não ter recurso suficiente para apoiar nem sequer uma pequena parte das que merecem representa um dilema que traz angústia e inúmeras noites sem dormir. Tenho pensado no que fazer com essas informações. Temos batido na porta de inúmeras fundações financiadoras buscando co-investimento, mobilizado nossos grupos de apoiadores em Nova York e Miami para adotarem projetos – com algum sucesso, mas ainda em escala infinitamente menor do que a demanda.

Diante deste cenário chegamos a algumas conclusões. Primeiro, precisamos compartilhar melhor essas informações. Temos um mapa riquíssimo de tendências que podem servir para pautar tanto políticas públicas quanto atuação do setor privado.

Segundo, que nossos governantes estão completamente desconectados das reais demandas do país e desconhecem soluções possíveis, que em muitos casos são simples e baratas. Por fim, existe muita sobreposição e duplicação de esforços, que reforçam a importância de continuarmos financiando programas de intercâmbios e transferências de metodologia, bem como articulações de redes de lideranças. 

Uma coisa é certa: o Brasil vai sair dessa crise muito, muito mais forte. Nossos líderes exportam tecnologias sociais. O nível de inovação, consciência, amadurecimento e cooperação que presenciamos ainda não chegam às manchetes de jornal, mas há uma revolução acontecendo na sociedade civil, que nos enche de esperança. 
**Patricia Lobaccaro é presidente e CEO da BrazilFoundation**