A revolução na educação do Pantanal começou com muita dedicação e um pequeno investimento financeiro

Por Nuria Saldanha

É em Miranda, no Pantanal do Mato Grosso do Sul, que vive a maior população de índios Terena do Brasil: são cerca de 8 mil pessoas. E foi dentro das aldeias da região que nasceu o IPEDI, Instituto de Pesquisa da Diversidade Intercultural. A organização foi fundada em 2012 por um grupo de pesquisadores acadêmicos da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul que queriam contribuir com as comunidades locais as quais os acolhiam e serviam de base para tantos projetos acadêmicos.

Desde então, eles trabalham para melhorar os índices de educação, valorizar a identidade cultural e os saberes tradicionais locais. O primeiro grande projeto que desenvolveram foi o primeiro livro didático bilíngue português-terena, o Kalivono. O material foi criado junto com professores e comunidade escolar e é voltado para o ensino fundamental em escolas indígenas. Com metodologia que usa a língua e os conhecimentos tradicionais e elementos do dia a dia das crianças nas aldeias, foi pensado para ser um instrumento de preservação da tradição e da língua Terena, que está ameaçada de extinção – apenas 17% das crianças locais têm fluência no idioma, segundo a Unesco. O material foi financiado por meio de edital da BrazilFoundation.

“Foi a nossa primeira patrocinadora, foi quem foi lá em Miranda e viu um grupo perdido que queria fazer um livro, viu potencial na gente e explicou o que era o terceiro setor, o que era impacto, o que era diagnóstico, nos orientou e tem segurado nas nossas mãos desde então” – conta a presidente do IPEDI, Denise Silva, para nos encher de orgulho.

Foi um pequeno investimento num grande sonho. Essa história só podia dar certo! Com um aporte de apenas R$ 25.000 da BrazilFoundation e o apoio da comunidade de Miranda, o IPEDI lançou o Kalinovo em 2015, imprimiu milhares de cópias e treinou centenas de professores da região para usarem o livro em sala de aula, beneficiando alunos indígenas e não indígenas. Para lançar o livro, o IPEDI pediu ajuda a universidades locais, que liberaram pesquisadores para auxiliar no projeto e até imprimiram o material.

“As grandes organizações e até muitas pessoas, eles olham para o valor que recebemos e acham que é pouco, mas para a gente faz muita diferença” – diz Anderson Benites, diretor executivo do IPEDI. O Instituto não tem sede. As pessoas que trabalham na organização o fazem de vários lugares: de casa, no campo, nas aldeias indígenas e nas comunidades ribeirinhas. Todos os recursos recebidos são aplicados nos projetos. “Quando você não acredita que é possível gerar impacto com pouco dinheiro, você não acredita na capacidade de quem está na ponta” – diz Anderson. “O grande aprendizado que a gente teve com a BrazilFoundation é que a gente consegue potencializar os recursos fazendo parcerias dentro da comunidade.”

O resultado ficou tão especial que o Kalinovo foi certificado como Tecnologia Social pela Fundação Banco do Brasil e recebeu um Prêmio do Movimento Natura. E ver o sucesso do livro nas escolas foi o empurrãozinho que faltava para o grupo de acadêmicos do IPEDI começar a tirar seus projetos e ideias do papel e colocar em prática. A organização cresceu nos últimos cinco anos e hoje seu trabalho se estende a comunidades indígenas, populações ribeirinhas e moradores da zona rural da região do Pantanal. “De lá para cá pudemos crescer, ampliar nosso impacto, formar a nossa equipe e desenvolver ações além daquelas propostas originalmente” – diz Denise.

O foco da organização são os brasileiros que não tiveram acesso à educação. Pessoas que têm o sonho de aprender, mas que precisam de uma didática muito personalizada, porque estão inseridos em contextos sociais complexos e em situação de vulnerabilidade social como, por exemplo, os pescadores artesanais que não sabem ler nem escrever.

Com o projeto Barco de Letras que nasceu no IPEDI, eles são alfabetizados a partir de informações e elementos que fazem parte do dia a dia deles. Estes pescadores tiram o sustento do rio e, além da venda do pescado, muitas vezes, atuam como guias de pesca para quem visita o Pantanal. Eles precisam da língua para se comunicar com turistas, fazer as contas do dia a dia e, principalmente, se sentirem fortalecidos e com autonomia para o trabalho e a vida.

A iniciativa saiu do papel com um investimento de apenas R$ 5.000 do Prêmio de Inovação Comunitária da BrazilFoundation. Você acha que é pouco? “Tocou o ano inteiro do projeto, conseguimos adquirir material para os alunos, custear combustível e ainda oferecer uma ajuda de custo para a alfabetizadora”– conta Anderson. De lá para cá dezenas de pescadores já aprenderam a ler e a escrever no projeto. E quando a verba apertou, os pescadores mesmo se organizaram para transportar a professora. Um exemplo de solidariedade!

“A gente está comprometido com a causa porque é a causa da nossa comunidade, porque a gente vive isso. Podemos até não mudar tudo, mas a gente consegue transformar muita coisa” – conclui Anderson.

De olho no futuro, o IPEDI se prepara para ampliar o alcance das tecnologias sociais que desenvolveu para a educação. A ideia é usar os materiais didáticos e a experiência em outros municípios da região e de outros estados.