Na Amazônia, aliar inovação à valorização dos saberes tradicionais está contribuindo para o desenvolvimento local

O trabalho da Casa do Rio vem impactando aproximadamente 300 famílias da região

Nosso coordenador de Monitoramento, Bruno Faria, viajou 12 horas – de avião, barco e carro – para chegar até Careiro Castanho, onde está sendo feito o trabalho da Casa do Rio. Com muitas trocas e observações, a experiência da visita aos projetos nos permite entender o contexto, conhecer de perto as ações e desafios das organizações e refletir sobre o impacto do investimento. Bruno nos conta como foi a viagem.

Por Bruno Faria

À beira do Rio Negro, em Manaus, no porto do Ceasa iniciei a minha jornada para chegar à Casa do Rio. No porto funciona um mercado popular e é onde se faz a travessia para Careiro da Várzea, que nos leva à BR-319 e, então, ao nosso destino.

A Casa do Rio surgiu de uma vontade de colaborar para o desenvolvimento sustentável da região Amazônica. Ações que integram questões locais e globais, com respeito aos saberes tradicionais, que vêm impactando aproximadamente 300 famílias da região.

Marquei de encontrar o Thiago Cavalli, que iniciou todo esse trabalho por lá, no terminal das voadeiras que fica no porto. Caminhei pelo mercado popular, onde se vende peixes e produtos locais, e vi as muitas balsas gigantes que fazem a travessia com caminhões, combustíveis e determinados tipos de mantimentos.

Deixamos Manaus ao forte som do motor da voadeira e com a água do Rio Negro molhando a todos nós embarcados. Chegando em Careiro da Várzea, um carro nos levou até Careiro Castanho, onde fica o Centro de Saberes da Casa do Rio – um polo de inovação para troca de conhecimento e saberes – e que seria o nosso refúgio nos próximos três dias. A BR-319 liga Careiro da Várzea a Porto Velho. Passando pela rodovia pude entender o contexto local, e o quanto está sendo fundamental o trabalho da organização para o desenvolvimento da região.

Na estrada, o espaço entre as casas crescia e ia dando lugar a plantações e, mais ao fundo, à mata. Ao chegar em Careiro Castanho encontrei uma cidade pequena, com um alto índice de violência e tráfico de drogas, me alertou o Thiago. Entrando no Centro de Saberes fui surpreendido por um painel de boas-vindas feito por jovens que participam da oficina de grafitti oferecida pela organização.

Já na chegada, na primeira reunião com algumas lideranças dos projetos apoiados, e antes mesmo de visitá-los, consegui ter um panorama do impacto que o apoio da BrazilFoundation ajudou a causar na região – e como foi importante o intercâmbio de experiências com o MMNEPA (outra organização da nossa rede) para ajudar a fortalecer os empreendimentos solidários entre mulheres. Foi possível entender como a relação próxima da população com o Thiago tem sido primordial para a consolidação e o desenvolvimento do trabalho.

A receptividade e a abertura para o novo é um dos pontos altos das lideranças dos projetos desenvolvidos pela Casa do Rio. A troca de saberes entre eles é constante e as reuniões acabam sendo quase uma sala de aula para todos com diversos temas sendo abordados – desde como se faz o preparo da pupunha até como se tem um melhor desempenho dentro da agricultura sintrópica – um sistema que alia o manejo sustentável do solo com ações para o equilíbrio e preservação de todo o ecossistema.

A reunião com as lideranças se encerrou com uma grande roda onde todos deram as mãos e fizeram uma corrente valorizando a manhã de aprendizado que tivemos uns com os outros.

Logo após, uma reunião também com a representante da Secretaria Estadual do Meio Ambiente do Amazonas que está atuando em parceria com a Casa do Rio, reconhecida pela Secretaria como o principal trabalho de desenvolvimento do local. A atuação em conjunto pretende no futuro frear ações de desmatamento e a inserção, em outras comunidades mais isoladas, do trabalho que já vem sendo feito.

Conheci os jovens do coletivo Tupigá, que vivem nos locais beneficiados pelos projetos da Casa do Rio. Eles se encontram no Centro de Saberes para desenvolver atividades culturais e cursos de capacitação. Pude ver os materiais audiovisuais elaborados por eles, os fanzines e compartilhei um pouco dos sonhos deles em relação ao futuro.

No dia seguinte foi a visita de campo aos projetos das lideranças que conhecemos no dia anterior. Estava um dia chuvoso, e pude ver as dificuldades que a maioria dos moradores da região enfrenta para conseguir executar simples atividades no dia a dia. Percorri durante todo o dia a BR-319 visitando os projetos. Estive com mulheres que produzem bolsas a partir de um determinado tipo de cipó. Elas já estão comercializando seus produtos no exterior e tiveram seus itens em passarelas da São Paulo Fashion Week no ano passado. As mulheres têm uma espécie de museu onde ficam expostos todos os produtos que um dia foram produzidos por elas, e é impressionante a evolução da produção antes do projeto e agora.

Também estive em produção de viveiros de mudas, criação de alevinos de tartarugas para serem reinseridas na natureza, quintais agroecológicos e produtores de mel. A Casa do Rio trabalha com uma gama variada de atividades em uma longa extensão territorial e incentiva uma agricultura não agressiva dentro da Amazônia, impedindo que o desgaste do solo o torne improdutivo.

Junto das comunidades, a Casa do Rio vem ajudando a promover uma grande mudança na região e pretende expandir ainda mais a atuação. O Thiago hoje é uma liderança reconhecida pela população, pela secretaria do meio ambiente e pelo poder judiciário do Amazonas.

A iniciativa que teve o seu primeiro apoio pelo edital da BrazilFoundation hoje está se consolidando como uma das principais organizações em um dos locais mais vulneráveis do nosso país. Há muitos projetos acontecendo na Amazônia, mas poucos trabalham junto e diretamente com a população como tem feito a Casa do Rio, que está em um estágio de amadurecimento e em breve deve começar a alcançar resultados ainda maiores.

Essa visita foi uma grata experiência. A volta para casa foi embaixo de muita chuva, com botos acompanhando a voadeira no Rio Negro e a certeza de que o investimento feito lá atrás, em 2014, está realizando mudanças efetivas e duradouras.