Por Sandro Coneglian*

Fotos SPVS – Araucária, Sr Crema, Tamanduás Bandeira

 

Quando John Muir visitou o Sul do Brasil, no início do século XX, se referiu a Floresta com Araucária como a mais interessante floresta já vista em toda sua vida. O naturalista americano, que  anos antes havia  convencido o Congresso dos Estados Unidos a criar o Parque Nacional de Yosemite, lamentou não haver no Brasil proteção para aquela floresta, a exemplo da proteção conquistada para as sequoias e paisagens encontradas na Califórnia.

Pouco mais de cem anos após a visita de Muir, 2011 foi declarado pela Organização das Nações Unidas como Ano Internacional das Florestas. No Brasil, o cenário mudou bastante no que diz respeito a proteção as florestas nas últimas décadas: o país criou um bom sistema de áreas protegidas, incluindo categorias que têm por função primária proteger a natureza e as pessoas que dela vivem; o número de áreas legalmente protegidas aumentou significativamente; a proteção das florestas ganhou novos aliados como proprietários de áreas naturais e inclusive empresas têm a possibilidade de implementar suas ações de conservação criando reservas particulares; recentemente, os PSA – pagamento por serviços ambientais – começaram a ser melhor delineados entre governo e Organizações não Governamentais.

Para citar uma boa prática de PSA: na região Sul do Brasil, berço dos mais significativos remanescentes da paisagem natural com Araucária visitada por Muir, quase quatro mil hectares de floresta particulares são preservados e manejados como se fossem áreas legalmente protegidas. A partir de uma iniciativa da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental, SPVS, foi criado um programa em que dez financiadores do setor privado se envolvem na proteção e conservação da natureza. Um deles, o banco HSBC, já apoia 15 áreas, repassando aos proprietários recursos monetários para que eles mantenham conservados os remanescentes de Araucária em suas propriedades. As famílias diretamente beneficiadas melhoram a infraestrutura do local e inclusive contratam um guarda-parque para vigilância contra incêndio, desmatamento e caça de animais silvestres, entre outras questões.

José Orlando Crema, proprietário do sítio “Sossego”, confessa que a partir do apoio recebido pelo Programa Desmatamento Evitado da SPVS sente-se mais confiante para continuar adiante seu trabalho de conservação da área face a pressão sobre o uso dos recursos florestais ali existentes. Conservando a área, diz Crema, é possível continuar a “se maravilhar com a presença de animais como puma e as várias nascentes de água aqui continuam protegidas”.

Se o ano de 2011 traz uma boa oportunidade para destacar as boas práticas em relação às florestas, vale destacar também os enormes desafios que temos pela frente. Se no Brasil os biomas Amazônia e Mata Atlântica possuem informações relativamente densas e uniformes, os demais ainda carecem de um melhor conhecimento para suas proteções. Além disso, o Código Florestal, a principal lei de proteção das áreas naturais do país, incluindo o patrimônio hídrico, está sob ameaça de retalhamento, fato gravíssimo para o futuro da conservação das florestas.

*Sandro Coneglian é graduado em Engenharia Florestal e mestre em Gestão Ambiental. Exerceu funções diretivas em organizações não governamentais ligadas a conservação da natureza e em órgãos públicos. Possui larga experiência em gestão ambiental, com ênfase em áreas naturais protegidas, elaboração e execução de projetos de conservação ambiental, atuando principalmente nos seguintes temas: unidade de conservação, desenvolvimento comunitário em áreas protegidas, e mudanças climáticas. Possui artigos publicados em gestão de unidades de conservação e desenvolvimento comunitário, mudanças climáticas, educação ambiental e arborização urbana.