O esporte que abre as portas para um novo mundo

Crianças e adolescentes de São Gonçalo chegam na UMRio para jogar Rugby e aprendem a alcançar a virada na vida

Por Nuria Saldanha

O Brasil é conhecido como o país do futebol, mas em São Gonçalo, município da região metropolitana do Rio de Janeiro, crianças e jovens estão vibrando com um outro esporte. Criado na Inglaterra há quase 200 anos, o Rugby desperta a curiosidade de meninos e meninas da periferia da cidade e serve como porta de entrada para o programa de desenvolvimento pessoal e social da UMRio. A UmRio foi apoiada em 2018 pela BrazilFoundation com recursos da campanha Vivo à Beira.

“O esporte oferece os valores, a sensação de equipe, o senso de pertencimento e um foco, que é tão importante”- diz Robert Malengreau, fundador da organização social. “A ideia de que se você concentrar e focar, vai conseguir.” Conceitos que valem no esporte e na vida.

Para atender cerca de 400 crianças e jovens com idades entre cinco e 25 anos, a UMRio conta atualmente com 53 voluntários fixos que atuam dentro de um espaço emprestado pela escola municipal João Brasil, no Morro do Castro, uma das comunidades mais pobres do Rio de Janeiro, com infraestrutura social precária e alto índice de evasão escolar, violência e tráfico de drogas. 

O que me chamou a atenção quando decidi trabalhar aqui em 2013 foi que essa era a única escola na comunidade, que só é servida por uma linha de ônibus que passa raramente, e que não tinha nenhuma outra organização trabalhando no local” – diz Robert. As bolas e uniformes são oferecidos pelas universidades de Oxford e Cambridge e uma parceria com a Universidade Estadual do Rio de Janeiro garante atendimento odontológico gratuito.

Além de aprender e praticar o Rugby por cerca de duas horas semanais, os alunos do projeto têm aulas de inglês, matemática, química e reforço escolar. Cursos de empregabilidade e preparatórios para ensino médio e vestibular também são oferecidos aos finais de semana. O foco do trabalho é o desenvolvimento pessoal, para que os alunos desenvolvam confiança em seus potenciais e busquem oportunidades.

Nós não estamos aqui para formar super atletas, nós estamos tentando usar o esporte para promover valores e habilidades que podem ser transferidas também para fora de campo“- diz o coordenador do projeto.

Filho de uma brasileira e de um inglês, Robert nasceu e cresceu na Inglaterra, onde começou a jogar Rugby aos seis anos. Se tornou jogador profissional e, durante o mestrado em Oxford, concentrou-se nos estudos sobre a função do esporte na integração social. Foi lá que Robert decidiu que sua pesquisa poderia ter um grande impacto na prática e resolveu criar o projeto no Brasil. Para começar, contou com ajuda de amigos e da universidade inglesa, mas precisou trabalhar em muitos lugares fora da organização social para se manter e conseguir sustentar seu sonho. “As pessoas muitas vezes não entendem que o trabalho social é um trabalho. É frustrante, mas a gente aguenta porque a gente consegue ver os resultados” – conta.

Os impactos na vida dos jovens e das famílias estão sendo acompanhados de perto pela organização, e verificados por meio de pesquisas feitas com todos eles. Na mais recente, os avanços mostram a importância desse trabalho:

• 100% dos pais disseram que o rugby proporcionou uma virada determinante no comportamento das crianças;
• 89% de jovens inscritos no programa de rugby, que se encontravam em situação de evasão escolar, foram reinseridos em sistemas de ensino;
• 81% dos estudantes do Morro do Castro que passaram nas provas de admissão em  escolas de Ensino Médio nos últimos três anos são participantes do UmRio.

Robert acompanha com carinho alunos que estão vencendo de virada a falta de auto-estima, a violência, o crime e as drogas. Na UMRio as portas estão sempre abertas para quem quiser jogar. O time da organização se inspira nas palavras do líder sul-africano Nelson Mandela sobre o poder transformador do esporte.

O esporte tem o poder de mudar o mundo. Tem o poder de inspirar, tem o poder de unir as pessoas de um jeito que poucas coisas conseguem. Ele fala com os jovens na linguagem que eles entendem. O esporte pode criar esperança em lugares onde há apenas desespero. (Mandela)

“A gente vive para ver esse resultado social” – conclui Robert.